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Rui Norte destacou a importância da capacidade física no ensino da técnica de corrida

A Escola de Treinadores da Confederação de Treinadores de Portugal promoveu recentemente um webinar dedicado ao ensino da técnica de corrida, que contou com 980 participantes, reunindo treinadores de diferentes modalidades para uma reflexão aprofundada sobre a relação entre biomecânica, capacidades físicas e metodologia de treino.

A sessão teve como formador convidado Rui Norte, treinador de Atletismo, com moderação de Marco Santos, proporcionando um momento de partilha de conhecimento técnico e reflexão prática sobre o treino da corrida. A sessão já está disponível no nosso canal de Youtube AQUI, para ver ou rever!

Ao longo do webinar, ficou clara uma ideia central: a técnica de corrida não deve ser imposta como um modelo rígido, mas sim entendida como consequência das capacidades do atleta. Neste sentido, muitos dos erros frequentemente observados — como o apoio pelo calcanhar ou tempos de contacto prolongados — resultam, na maioria dos casos, de limitações físicas e não apenas de falhas técnicas.

Técnica, eficiência e capacidade física

O formador destacou que correr de forma eficiente implica reduzir o tempo de contacto com o solo, privilegiar uma ação de “puxar” em detrimento de “empurrar” o chão e garantir uma troca rápida e coordenada das pernas. A capacidade de utilizar as propriedades elásticas do sistema músculo-tendinoso foi apontada como um dos principais fatores diferenciadores entre atletas, permitindo maior eficiência energética e melhor desempenho. Foi também sublinhada a importância da rigidez (stiffness) ao nível do tornozelo, essencial para minimizar perdas de energia e melhorar a reatividade durante a corrida.

A sessão abordou ainda as diferentes fases da corrida — aceleração, velocidade máxima e desaceleração — evidenciando que os atletas mais evoluídos conseguem prolongar a fase de aceleração e adiar o momento de perda de velocidade.

Por outro lado, atletas menos experientes tendem a verticalizar precocemente, comprometendo a capacidade de manter velocidades elevadas. A gestão do esforço e da velocidade revelou-se também dependente da distância, sendo distintas as exigências entre provas de 60 e 100 metros.

No plano metodológico, foi reforçada a importância de privilegiar a qualidade da execução em detrimento da quantidade de exercícios. Exercícios como skippings, dribbles (circulares), trabalho com mini barreiras e saltar à corda foram apresentados como ferramentas eficazes, desde que executados com rigor e com foco na transferência para a corrida.

O formador alertou ainda para erros comuns nos jovens atletas, como o apoio demasiado à frente do corpo (overstriding), o ciclo posterior excessivo ou a falta de ativação do pé, frequentemente associados a défices de força, coordenação e capacidade elástica.

Outro dos pontos em destaque foi a relação entre a mecânica da corrida e o risco de lesão. O apoio pelo calcanhar, por exemplo, está associado a maiores picos de impacto, aumentando a probabilidade de lesões, sobretudo em corredores de resistência com elevados volumes de treino.

Apesar de centrada no atletismo, a sessão evidenciou a aplicabilidade destes princípios a diversas modalidades, reforçando que a qualidade da corrida influencia diretamente ações como acelerações, mudanças de direção e resposta a estímulos em contexto competitivo.

Este webinar reforçou uma perspetiva atual do treino - mais do que ensinar “como correr”, importa desenvolver atletas capazes de sustentar uma corrida eficiente. Uma abordagem que coloca a tónica no desenvolvimento das capacidades físicas como base para a evolução técnica, contribuindo para melhores níveis de desempenho e para uma prática desportiva mais segura e sustentada.